Leitura

Eu esqueci uma fantasia aberta no bloco de notas e ele leu antes que eu pudesse apagar

Eu escrevo minhas fantasias no celular desde os vinte anos, numa pasta que ninguém vê. Numa sexta deixei o celular desbloqueado no sofá e o Caio leu a mais recente. Na terça seguinte, quando cheguei em casa, o apartamento estava escuro.

Fantasia · 3 min · Lívia · 2 leituras

Eu tenho uma pasta no bloco de notas do celular chamada “Mercado”. Lá dentro não tem lista de mercado nenhuma.

Comecei aos vinte, depois de um namoro em que eu fingia gostar de tudo. Escrevia o que eu queria de verdade, frase por frase, sem vergonha, porque ninguém ia ler. Algumas eram bobas. Outras eu relia tanto que sabia de cor.

O Caio e eu estávamos juntos fazia um ano e meio. Ele é calmo, engraçado, cozinha bem e pede desculpa para os móveis quando esbarra neles. Um namorado ótimo. E eu nunca tinha contado para ele metade do que tinha naquela pasta.

Numa sexta eu fui tomar banho e deixei o celular no sofá, desbloqueado, aberto na última nota. Era uma fantasia simples. Eu chegando em casa e encontrando tudo escuro, uma venda em cima da cama e um bilhete dizendo só “deita”. Nada de mais. Só que estava escrita com detalhes que eu nunca tinha dito em voz alta.

Quando voltei para a sala, ele estava com o celular na mão e uma cara que eu não consegui ler.

Meu estômago caiu no chão. Pedi desculpa, falei que era bobagem, que era coisa antiga, que eu ia apagar. Ele esperou eu terminar.

“Tem mais?”, perguntou.

“Tem”, eu disse. “Muito mais.”

“Posso ler?”

Eu ri de nervoso e falei que não. Ele não insistiu. Devolveu o celular, foi para a cozinha terminar o risoto e a gente jantou falando de outra coisa. Eu achei que tinha estragado alguma coisa entre nós.

Na terça seguinte eu cheguei do trabalho e o apartamento estava escuro.

Fiquei parada na porta com a chave na mão, ouvindo meu próprio coração. Acendi só a luz do corredor. No quarto, em cima da cama arrumada, tinha uma faixa de cetim preto e um papel dobrado com a letra dele.

“Deita.”

Eu demorei um minuto inteiro para conseguir tirar o sapato.

Coloquei a venda sozinha, com as mãos tremendo, e deitei. Ouvi a porta do banheiro abrir. Os passos dele, descalço. O colchão afundando do meu lado. Ele não falou nada, e foi isso que me desmontou. Ele tinha lido a nota inteira. Sabia que eu não queria que ele falasse.

O resto aconteceu exatamente como estava escrito, e em algumas partes melhor, porque ele acrescentou coisas que eu não tinha tido coragem de escrever. Eu nunca tinha me sentido tão vista estando de olhos fechados.

Depois, deitados no escuro, ele tirou a venda do meu rosto devagar.

“Achei Mercado meio sem graça como nome”, ele disse.

“Muda, então.”

Ele pegou meu celular e renomeou a pasta. Agora ela se chama “Lista do Caio”. Na semana passada eu encontrei uma nota nova lá dentro, e não fui eu que escrevi.

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